08/08/2017

A primeira vez

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 Era a primeira noite de inverno, o primeiro dia de férias, a primeira festa, a primeira vez em que eles se beijaram. Ele estava nervoso, não conseguia disfarçar, embora estivesse tentando muito. As mãos inquietas o denunciavam, os olhos se desviando também. Ela estava ansiosa, podia sentir seu coração batendo mais rápido que a música e gostava da sensação. Sabia que aquilo mantinha seus sentimentos reais. Durante toda a noite estiveram lado a lado, rindo juntos, trocando tímidos toques, suprindo a necessidade que tinham de estarem próximos. Até a hora de dizer adeus. Ele chamou um uber sob a luz trêmula do único poste aceso na rua, ela prestou atenção no modo como a fumaça saía de sua boca quando ele falava. Antes que percebessem, estavam aconchegados nos braços um do outro. Seria o frio ou seus corpos implorando por aquele contato, se atraindo como polos opostos? Eles se olharam, a luz amena, amarela, permitindo que conseguissem analisar o rosto um do outro e então os lábios se esbarraram suavemente, os estômagos se contorcendo, os corações disparados como carros em fuga. O beijo durou segundos, mas a memória daquela noite… Oh, aquela não os deixaria dormir. Em sua insônia, ele apenas desejaria que ela ainda se sentisse da mesma forma ao amanhecer. Na dela, ela apenas desejaria que ele não brincasse com o seu coração.

06/07/2017

Contract: 2. contrato

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Temos medo de rejeição,
 Premiamos atenção,
 Ansiamos afeição,
Sonho, sonho, sonho de perfeição.
— MS MR, "Salty Sweet".

          Aquela noite não foi das mais fáceis de se enfrentar. Eu estava acostumada a varar as madrugadas trabalhando, mas tudo o que me impedia de dormir naquela era a ideia que se recusava a sair da minha cabeça. Por mais que fosse loucura e me fizesse repensar todos os meus princípios, eu continuava remoendo o assunto. A parte sensata da minha mente travava uma batalha contra a insensata e, bom, não era a sensata que estava ganhando. Sim, eu podia fazer aquilo. Depois de escrever tantos romances, por que eu não podia arriscar viver algo além da minha vidinha medíocre?
          Pouco mais tarde de eu conseguir pegar no sono, a luz entrando pelas persianas anunciou que era dia. Olhei o relógio no criado-mudo e constatei que eu dormira por três horas. Suspirei, me espreguicei e saltei para fora da cama. Meus pés descalços em contato com o chão frio causaram-me arrepios e pela janela vi o clima nublado, o céu cinza, exatamente como os olhos dele... Tomei uma ducha quente e me vesti com o conjunto de moletom que Hannah mais odiava, que também era o mais quente. Peguei a bolsa e o cartão do ator e rumei para sua casa. Ela provavelmente estaria de ressaca e precisaria de meus cuidados, enquanto eu precisaria de seus conselhos.
          A distância da minha casa até a sua era curta, então preferi deixar o carro na garagem e ir andando. Enquanto tivesse meus fones tocando Ed Sheeran, caminhar não seria um problema. Fiz uma parada no mercado para comprar algumas besteiras e pouco tempo depois, o porteiro de seu prédio autorizou minha entrada. Onde andares depois, peguei debaixo do capacho de sua porta a cópia reserva da chave e a usei.
          Ao pisar na sala, me deparei com Hanna largada no sofá com uma bolsa de água quente na testa, envolta por uma manta azul, enquanto assistia desenho animado. Aquela cena quase me fez rir, mas me contive. Ela continuava deslumbrante, mesmo com aquela expressão zumbificada. Fechei a porta atrás de mim e com o barulho ela finalmente me notou, virando o pescoço para me olhar e revirando os olhos inchados para mim.