06/07/2017

Contract: 2. contrato

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Temos medo de rejeição,
 Premiamos atenção,
 Ansiamos afeição,
Sonho, sonho, sonho de perfeição.
— MS MR, "Salty Sweet".

          Aquela noite não foi das mais fáceis de se enfrentar. Eu estava acostumada a varar as madrugadas trabalhando, mas tudo o que me impedia de dormir naquela era a ideia que se recusava a sair da minha cabeça. Por mais que fosse loucura e me fizesse repensar todos os meus princípios, eu continuava remoendo o assunto. A parte sensata da minha mente travava uma batalha contra a insensata e, bom, não era a sensata que estava ganhando. Sim, eu podia fazer aquilo. Depois de escrever tantos romances, por que eu não podia arriscar viver algo além da minha vidinha medíocre?
          Pouco mais tarde de eu conseguir pegar no sono, a luz entrando pelas persianas anunciou que era dia. Olhei o relógio no criado-mudo e constatei que eu dormira por três horas. Suspirei, me espreguicei e saltei para fora da cama. Meus pés descalços em contato com o chão frio causaram-me arrepios e pela janela vi o clima nublado, o céu cinza, exatamente como os olhos dele... Tomei uma ducha quente e me vesti com o conjunto de moletom que Hannah mais odiava, que também era o mais quente. Peguei a bolsa e o cartão do ator e rumei para sua casa. Ela provavelmente estaria de ressaca e precisaria de meus cuidados, enquanto eu precisaria de seus conselhos.
          A distância da minha casa até a sua era curta, então preferi deixar o carro na garagem e ir andando. Enquanto tivesse meus fones tocando Ed Sheeran, caminhar não seria um problema. Fiz uma parada no mercado para comprar algumas besteiras e pouco tempo depois, o porteiro de seu prédio autorizou minha entrada. Onde andares depois, peguei debaixo do capacho de sua porta a cópia reserva da chave e a usei.
          Ao pisar na sala, me deparei com Hanna largada no sofá com uma bolsa de água quente na testa, envolta por uma manta azul, enquanto assistia desenho animado. Aquela cena quase me fez rir, mas me contive. Ela continuava deslumbrante, mesmo com aquela expressão zumbificada. Fechei a porta atrás de mim e com o barulho ela finalmente me notou, virando o pescoço para me olhar e revirando os olhos inchados para mim.

26/06/2017

Agosto

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 Lembro-me detalhadamente do dia em que você se foi. Era agosto e fazia frio... Nós poderíamos nos aquecer junto à lareira, falando de coisas bobas e tomando café. Eu tomaria chá, pois detesto café, enquanto você ama. Mas preferimos gritar como loucos. Os motivos? Nós nem sequer tínhamos um. Era apenas a rotina exercendo sua função, mas isso te cansava — a mim também, admito — e então você chegou ao seu limite.
 Aquele cômodo vazio representava exatamente o meu ser. Olhava fixamente a porta pela qual você saiu e nunca mais entrou, como se fosse ela a culpada por eu ter te deixado escapar por entre meus dedos. Algum sábio deve ter dito que não devemos deixar ir quem nós amamos e outro deve ter discordado e dito que se você realmente ama alguém, não a deve prender em infelicidade. Ou talvez essa discussão tenha acontecido em minha cabeça, quando você partiu e me deixou para trás com minha culpa. 
 Sua ausência me fez ver o quanto sua presença me faz falta... Eu demorei a perceber que sua risada era o meu som favorito no mundo. Que a cor dos seus olhos era a mais bonita que eu já tinha visto. Que suas palavras faziam toda a diferença em meus dias. Dói confessar, mas demorei para entender que parte de você não existia sem mim e pior, eu não existia sem você.
 Agora eu vejo que fui feliz e não sabia. Que as pequenas coisas de nós dois eram tudo para mim. Eu precisei ficar sem nada para ver que tinha tudo. Eu precisei perder você para achar a mim. Agora eu vago pelo escuro em caminhos tortuosos da vida esperando que, numa esquina ou noutra, nos esbarremos. Eu me pego sonhando acordado com xícaras de chá e abraços fortes em frente à lareira, esperando te ter novamente no próximo agosto de frio.